segunda-feira, 13 de abril de 2020

Um Dia de Outono

Um dia de outono como o de hoje me faz adentrar numa grande sala com muitas prateleiras de nostalgias. Pego-as com mãos quentes, abraço-as marejadamente. E o coração se torna leve. Espaços que, apesar de velhos me renovam, jamais ultrapassados, pois têm um grande significado em minha vida. O antigo nos regenera de momento a momento... Ou por pessoas que nos marcaram, ou por caminhos por onde passamos, ou por cicatrizes que trouxemos, ou por batalhas que vencemos...

Só se sente saudade do que é bom. E o bom não precisa ser mais eterno do que o tempo que durar. Só se chora de saudade, não por fraqueza, mas porque se é forte e se assume o quanto se ama. E o amor não é passível de críticas e nem de condenações.

Eu não gosto de chorar. Prefiro sentir nostalgia. Elas me deixam leve. Nostalgia, para mim, é sentir cócegas na alma. Dá vontade de sorrir. Não sinto nem dor e nem falta de nenhuma delas. Carreguei-as enquanto precisei, enquanto nos precisávamos. Cumprimos juntos nossa missão. Hoje estão guardadas nesta sala cuja chave está escondida nos dias mais frios. É mais fácil encontrá-la nos outonos.

Os tempos quentes e os dias muito claros enegrecem meus pensamentos. Quem consegue polir suas nostalgias enquanto se abana de calor?

O frio do outono aquece os meus gélidos medos do presente porque me fazem lembrar de momentos em que eu superei. E superar vem de ser superior. Fui super, fui maior... Maior do que meus medos, minhas aflições e meus receios. Fui maior até do que as verdades que eu carregava.

O sol fraco me clareia os pensamentos. As noites, cada vez mais longas, não me impedem de acordar de madrugada, pois me permitem receber o dia seguinte de braços abertos parecendo, no entanto, que o aguardo cada dia mais cedo já que a manhã se demora um pouquinho mais para chegar todos os dias. E ela sabe que é responsável por aqueles que cativa. Por isso nunca falhou comigo um dia sequer.

Os pés gelados, o cobertor enrolado nas pernas, o silêncio das ruas, o amanhecer demorado, o café quentinho, o livro aberto que também me lê só confortam mais e mais o meu coração. Pois o outono vem dizendo que o frio mais frio ainda virá.

E se eu já gosto do outono, imaginem, então, do inverno onde as chaves da minha sala são ainda mais fáceis de encontrar...

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